O Poeta da Transmutação
Antônio Sodré, carinhosamente chamado de Sodrezinho, foi mais que um poeta: foi um fenômeno cultural em Mato Grosso. Nascido em Juscimeira e radicado em Cuiabá desde a década de 1970, ele marcou gerações com sua voz firme, sua poesia visceral e sua postura irreverente diante da vida. Autointitulado “el poeta de la transmutación”, transformava cada palavra em um ato de liberdade, cada encontro em uma celebração da arte.
Filho de comerciantes baianos, cresceu em meio à pluralidade cultural, o que alimentou seu espírito inquieto e criativo. Formado em Letras, Sodré fez da Universidade Federal de Mato Grosso não apenas um espaço de estudo, mas um palco vivo de encontros. À frente de sua lendária banca de livros — o “Sebo do Sodré” —, tornou-se referência para estudantes, músicos e escritores, sempre com um sorriso provocador e uma palavra certeira que cutucava a alma.
Na década de 1980, mergulhou de vez na cena cultural cuiabana, sendo um dos fundadores do coletivo Caximir-Bouquê (1984), que ousava misturar poesia, música e artes visuais em apresentações performáticas e inovadoras. A partir dali, seu nome se consolidou como um dos símbolos da poesia mato-grossense, sempre alinhado ao espírito de contestação e liberdade criativa.
Sua produção literária inclui obras marcantes como “Besta Poética”, publicada pela Carrión Carracedo, e “Empório Literário, Versos Diversos”, editada pela Carlini & Caniato. Mais que livros, são testemunhos de sua forma única de traduzir o mundo: com intensidade, humor, ironia e profundidade. Seus textos ecoam até hoje como gritos de resistência, liberdade e transformação.
Sodrezinho partiu em 19 de fevereiro de 2011, mas sua presença permanece viva em cada verso declamado, em cada história contada e em cada coração que foi tocado por sua poesia. Tributos, shows e eventos culturais continuam a reverenciar seu legado, mantendo acesa a chama daquele que fez da palavra um instrumento de revolução íntima e coletiva.
Antônio Sodré é memória, é presente e é futuro. Um poeta que viveu intensamente, transmutou sua existência em arte e deixou um rastro luminoso para que todos nós possamos seguir — livres, questionadores e profundamente humanos.