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Vida e Obra

VIDA E OBRA

Os anos oitenta abriram as portas para a redemocratização do país. As ditaduras latino-americanas estavam em curso e no Brasil, de Castelo Branco a João Batista de Figueiredo a cultura esteve a reboque dos acontecimentos políticos. Doces Bárbaros, Mutantes, Raul Seixas e muitos outros estavam de um lado; Roberto Carlos e Os incríveis, de outro. Tim Maia no meio daquilo tudo implodindo com sua linguagem os muros do país. Cuiabá navegava em uma contracultura discreta, grupos de artistas que, no entorno na Universidade Federal de Mato Grosso se aquartelavam pelos cantos em busca de cumplicidade. A arte, que por aqui era mato, ia muito além das artes plásticas, reduto tradicional da cultura do momento. A partir de 1997 o Caximir começou, anualmente, a realizar atividades no dia 14 de março, dia nacional a poesia, em homenagem ao poeta baiano Castro Alves.

Antonio Sodré de Souza Neto também era um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, natural de Rondonópolis, nascido em 1959. Faleceu em Cuiabá, cidade onde residiu quase a vida toda, em fevereiro de 2011. Nos anos de 1980, participante do grupo Caximir Buquê, publicou A besta poética, com ilustrações de seu irmão, o artista plástico Adir Sodré. Parte de sua obra foi publicada em 2005 pela Carlini & Caniato no volume Empório Literário: versos diversos; também ilustrados pelo irmão. Fruto de experimentações embaladas pela poesia marginal, a poética de Antonio tem sido vasculhada pelos pesquisadores de sua obra e já gerou um primeiro produto postmortem: Cuiabaratotal, em 2021, seleção obtida a partir da leitura crítica de seus cadernos construídos ao longo de toda sua existência. Além de poeta, era artista visual – sobretudo pelos trabalhos em pontilhado, seus incontáveis ideogramas em folhas de caderno, guardanapos e pedaços de papel variados, além de letrista e músico com várias canções gravadas pelo Caximir. Leitor de Bashô e Leminski tem a sua linguagem poética atravessada pelos principais temas contemporâneos tais como: crise da representação no campo da arte e da filosofia, questões ambientais, a negação do sujeito, críticas ao neoliberalismo, dentre outros, como comprova o fragmento a seguir: “/A mentira evoca a verdade, e,/portanto, é a sua própria sombra./” Digitalizar o seu acervo é medida urgente a fim de disponibilizar para o maior número de pesquisadores, sobretudo em nível de pós-graduação strictu-sensu de Mato Grosso e do Brasil o conjunto de sua obra. São sessenta cadernos (60) que abordam temas que vão das questões políticas, passando por temas antropológicos e filosóficos, transitando por questões urbanas, estudos de outros idiomas, anotações para exposição de outros artistas e divagações filosóficas do “tipo”. – HEGEL E KANT: DESCARTE-OS! – Acho esse filósofo INSIGNIFIKant! (Brada Aristóteles!)” – Antônio Sodré por Maurília Valderez e Luiz Renato.